“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma… para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol”.
(Ec. 9:5-6)

                No caminho para minha casa passo ao lado de um cemitério, o segundo mais antigo da cidade. Os muros baixos fazem desse lugar de descanso dos mortos um incômodo para os vivos. Afora o sentimento de que o muro não cerca convenientemente os mortos, ladrões roubam os granitos e placas dos tumulos, ou profanam as sepulturas para subtrairem ossos, usados em supostos rituais mágicos.

                A prefeitura, então, decidiu construir um muro mais robusto e alto, buscando impedir que os vivos pulem e adentrem. O muro antigo foi removido e uma retoescavadeira abriu as cavas do novo alicerce, e o novo muro caminha sem pressa, como muitas obras públicas.

                Porém, um mistério repetitivo vem acontecendo: árvores internas do cemitério estão caindo sobre o novo muro. Há quem pense ser um protesto dos mortos pelo novo muro estar “tirando a visão da rua” ou dificultando a “visitação” dos que habitualmente pulam o muro.  

Assombrações são definidas pelo dicionário como “espíritos” que causam terror, susto ou algo prejudicial aos vivos. Os filmes de terror popularizaram este termo e até mesmo a crença, criando cenas fantásticas de zumbis e fantasmas atacando ou possuindo pessoas e causando algum terror nos que acreditam.

Quando nossa fé se fundamenta em crendices e supertições, temos medo de tudo o que não compreendemos. Não é racional o medo de mortos que muitos evidenciam. Os vivos, sim, devem ser uma preocupação constante. São eles que nos enganam, assediam, roubam, violentam ou agridem. Como cristão tenho convicção de que os mortos estão dormindo desde que fecharam os olhos. E como todos os que já partiram, aguardam pela ressurreição, quando comparecerão diante de Deus para receberem dele a chave de seu destino eterno.

                Mas afinal, devo ou não me preocupar com o mistério das árvores do cemitério?

Para isso, antes de mais nada, preciso definir meu fundamento de fé, para aceitar ou rejeitar como dogma impressões e/ou assombrações. Há religiões, por exemplo, que admitem que os mortos continuam “vivos” vagando pelo além ou entre nós. Há celebrações em que vivos e mortos até “comem” juntos; outras admitem a comunicação entre vivos e mortos, e aceitam fatos ou ensinos cuja fonte seriam espíritos de pessoas mortas.

                Não é esse o fundamento cristão, sendo a Bíblia a base da fé que abracei. Assim, aceito por fé o que ela me assegura, e tenho paz nisso. No recente estudo que fizemos sobre o Livro de Eclesiástes, mais uma vez revisamos o que cremos sobre os mortos:

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”.
(Eclesiastes 9:10)

Reconheço, porém, que tudo isso é matéria de FÉ. Não posso provar que esteja certo e os outros errados. Assim eu acredito, e achei paz naquilo de aceitei. Alguns optaram por crer em NADA. Isso é uma escolha. Mas eu escolhi crer, e assim, precisei também escolher NO QUE crer, visto que as crenças são diversas e ninguém pode se assenhorar como dono absoluto da verdade. Fé sempre será uma escolha e deverá ser respeitada.

Porém, nem tudo terei que aceitar por fé.

Por exemplo: ao abrir as cavas para o novo alicerce do muro do cemitério, a retroescavadeira cortou a maior parte das raízes das árvores próximas do antigo muro, tirando parte de sua sustentação. Em tempos de chuvas de verão, com fortes ventos, as árvores tombaram exatamente na direção onde suas raízes foram cortadas. Fé e razão precisam caminhar lado a lado. Mesmo em se tratando de fé, há muita crença ilógica e confusa. Mortos derrubando as arvores é uma explicação, mas perde na fundamentação.

Apesar de duvidar dos mortos-vivos, eu acredito na existência de certos fantasmas, assustadores dos vivos, mas que não existem do lado de fora. Eles vagam como assombrações pelas nossas lembranças e nos inquietam como pesos em nossa consciência. De vez enquanto nos aparecem, mas sempre incomodam e perturbam. Eles são reais!

Jesus morreu e depois ressuscitou. Eu decidi crer nisso. Ele conhece o mundo dos vivos e mortos. E nele eu espero que a morte e os mortos terão uma solução definitiva. Espero por uma nova vida. E isso me trouxe muita paz.

                                                           Pr. Sérgio de Oliveira Campos