Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações”. I Sm. 84-5

                Entre as muitas recordações da Infância, está a que eu chamo de “Dia do Barbeiro”. Não me lembro bem a periodicidade, mas meu pai ia cortar seu cabelo e levava a mim e meu irmão com ele, e todos nós passavamos pela tesoura.

                O tempo passou e a rotina se manteve até no início da adolescência. O mundo já havia mudado, mas o hábito do meu pai não. E o pior de tudo – o modelo do corte era o mesmo, algo parecido com o corte dos militares hoje em dia.

                Meu mundo entrara na época do “cabeludos”. Eram os “Beatles” na Inglaterra, e os cantores da “Jovem Guarda” no Brasil que plantaram profundas mudanças. Todos os jovens daquele tempo usavam o cabelo maior – ou grande – e meu pai seguia ditatorialemnte seu costume nos fazendo usar um corte “fora da moda”, e eu me sentia muito mal sendo “diferente” dos outros da minha idade.

                Finalmente, minha mãe entendendo nossa “ansiedade por mudanças” intermediou nossa causa com meu pai, que, a partir dali não mais interferiu nessa questão, e cada um de nós passou a gerir seu gosto e costume.

                Agora que estávamos “livres”, caímos em outra “ditadura” – a da moda. Não eramos mais livres para usar o que queríamos. Seguíamos a moda. Veio o “Movimento Hippie” e a moda evoluiu para um visual cada vez mais feio e desconfortável –  mas era a moda. E nenhum de nós queríamos pagar o preço de nos sentirmos “diferentes”.

                Lembrei-me, então, do início da história de Israel, quando o sistema de governo era “teocrático”. Deus comandava através do sacerdote os destinos do povo. Até que um dia eles disseram para Samuel: Queremos ter um rei. Todos os povos têm. Não queremos ser diferentes deles. Queremos ser como eles”. Transcrevo uma parte da narrativa:

“Referiu Samuel todas as palavras do SENHOR ao povo, que lhe pedia um rei, e disse: Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros; e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinquenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores. Também tomará os vossos servos e servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia. Porém o povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não! Mas teremos um rei sobre nós”. I Sm 8:10-19

                Eles conquistaram o que queriam… mas perderam a grande virtude que desfrutavam – eles que eram diferentes de todos os outros povos, passaram a ser “comuns”.

                Hoje, me vejo repetindo práticas do meu pai. Assim que o cabelo – já pouco e bem prateado – começa a roçar nas orelhas, peço à minha esposa para cortá-lo bem baixo, mais curto do que meu pai usava. Passei do tempo de preocupar-me em como as pessoas iriam de ver, para preocupar-me de viver a liberdade e usar o que me causa em verdadeiro bem estar.

                Cabelos, títulos, posses. Isso mais parece escravidão do que liberdade. Quero para minha vida o que tem durabilidade, estabilidade e eternidade. Tem muita coisa pela qual as pessoas lutam para ser ou ajuntar e que se tornarão simplesmente “pó”. Estou em busca do que sempre foi, e jamais mudará. Vou em busca de Deus e seus valores.

                Não quero apenas ser “diferente”.

                Quero fazer toda a diferença no meio da minha geração.

Pr. Sérgio de Oliveira Campos