“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Rm. 12:2

“O versículo acima muito tem falado ao meu coração nestes dias aqui em Moçambique. Precisamente na semana passada, creio ter sofrido o mais forte choque cultural, desde que cheguei em África, ao presenciar nas ruas de Beira, cidade próxima de onde vivo, o espancamento público de dois rapazes, que foram pegos roubando. Expostos publicamente, uma pequena multidão os seguia pelas ruas, dando-lhes chutes, socos, batendo com varas, e os desgraçados, sangrando, gritavam inutilmente por misericórdia. E a multidão, em festa, se divertia ao espancar os miseráveis.

 Isto aconteceu na sexta-feira, e repetiu-se no sábado. O segundo choque foi ainda pior que o primeiro, pois a pequena multidão que espancava o segundo rapaz, era na sua maioria, crianças e adolescentes, que se “divertiam” com aquela violência.

 Aquelas cenas muito me chocaram. Fui para casa com uma profunda tristeza e com lágrimas (e ainda não posso conter as lágrimas, enquanto escrevo aos irmãos). Falei com o Pai sobre o que se poderia fazer para salvar esta gente e tamanha crueldade? Então quando no domingo estava a falar com os irmãos da classe de discipulado. Compartilhei com os amados a respeito da tristeza que invadira meu coração ao ver aquelas cenas, e para minha surpresa, vi quase os mesmos sorrisos, da multidão violenta, porque, mesmos sendo cristãos, no coração deles havia os mesmos valores e sentimentos do seu povo e daquela cultura.

                                Pr. Paulo Ricardo Veiga – missionário em Moçambique

Esse testemunho me fez lembrar um episódio que me impactou tempos atrás. Recebi no celular um vídeo da execução de dois homens que haviam estuprado e matado uma menina. Os próprios moradores aplicaram o que chamaram de “justiça”. Após serem barbaramente espancados, eles foram queimados ainda vivos. A cena dos corpos ainda reagindo ao fogo me chocaram profundamente, e apesar do crime hediondo que cometeram, eu não concordei com a violência do castigo imposto em nome da justiça. A partir desse dia decidi que não mais veria cenas de violência que me fossem enviadas.

Palavras e sentimentos de revolta têm explodido pelo mundo, geradas por uma sociedade adoecida e embrutecida pelo pecado. São abusos policiais, balas perdidas, feminicídios, chacinas, falta de vagas nas UTIs, e outras ocorrências do gênero, permeando os sanguinários jornais diários. Se a nossa cultura fosse a mesma de Moçambique, estaríamos nós, incrédulos ou cristãos, sentenciando e punindo pecadores, aumentando esse já volumoso rio de sangue.

Minha mente voltou no tempo, e pensou nas últimas horas de Jesus em Jerusalém. Não deve ter sido diferente do que o missionário viveu, ou do que faríamos por aqui. Jesus foi violentamente agredido por soldados, maltratado pela multidão; escarnecido e humilhado pelo povo de seu tempo. Justificamos Jesus porque ele não tinha “culpas” ou “crimes” nas costas. Sofreu como inocente as afrontas daquela geração, porque, como o cordeiro de Deus, Ele precisava receber no corpo e na mente toda a carga da maldade humana para que pudesse transportá-la e anulá-la na cruz.

Jesus já foi martirizado por toda a humanidade. Se Ele morreu pelos pecados do mundo, não haveria razão para que os cobrássemos dos homens e os pregássemos nas cruzes. Jesus assumiu as culpas dos moços de Moçambique, bem como dos dois estupradores linchados. A multidão já expôs a Cristo, já o condenou, e ele já morreu, para que TODOS que erraram, pudessem ter a chance de recomeçarem a vida.

A páscoa é compreender isso: Jesus foi humilhado, maltratado e aceitou morrer por todos os homens, assumindo as cruzes do mundo para que o mundo pudesse receber o perdão e a possibilidade de terem de volta uma chance de vida. Jesus assumiu nossa morte para que pudéssemos receber Sua vida.

Em seus últimos momentos na cruz, Jesus trava um diálogo que encanta uns – e incomoda outros. Um ladrão e assassino condenado, morrendo ao seu lado clama: “Senhor, lembra-te de mim quando vieres no teu reino!”.  A resposta de Jesus vai contrariar uma porção de gente pelo mundo certamente: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso!”

Felizmente (ou infelizmente?) o céu estará cheio de gente torta, humilhada, maltratada e cuspida; de “ladrões” que foram crucificados, mas que foram encontrados pelo Senhor nas cruzes ao seu lado.

Cuidado!  Muita gente que nós abominamos e condenamos ao inferno poderá estar vizinhando conosco na cidade santa!

Feliz páscoa!

Pr. Sérgio de Oliveira Campos