“Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia”. – Jó 42:3

“Criei o costume de toda semana comprar sequilhos com goiabada na padaria perto daqui de casa. Comê-lo bebendo um café sem açúcar tornou-se, sem exagero, um dos momentos mais deliciosos da semana (tirando o dia da coxinha com café). Mas a goiabada me incomodava. Não necessariamente ela, mas sua pouca quantidade. Era um pingo no meio do sequilho.

Reclamei na padaria, chamei o padeiro de casquinha e tudo mais. Outro dia, voltando do estágio, passei pela padaria e, pra minha sorte, disseram que havia um sequilho especial pra mim. Lá estava, o meu sonho num sequilho de um real. Quase que completamente coberto de goiabada.

Chegando em casa, preparado o café e toda a ritualística necessária para consumir o apetecível sequilho, ocorreu que não comi nem a metade. Enjoei na segunda mordida. Ficara doce demais, chegava a dar náuseas. Dia seguinte, cheguei na padaria e lá estava: outro sequilho coberto de goiabada. Me ofereceram e, por vergonha de dizer que odiei o do dia anterior, comprei. Em casa, raspei a goiabada e comi.

O problema, o inferno, não era a goiabada nem o padeiro, era eu. Fui eu quem, amando o que amava, queria do meu jeito, sem entender que eu gostava era do jeito que era, porque se do meu jeito fosse, eu rejeitaria, enjoaria e até tentaria fazê-lo voltar a ser como era.

Assim fazemos com as pessoas também. No início as amamos como são, depois que estão conosco começamos a criticar, tentamos mudá-las, tentamos “colocar do nosso jeito”, sem saber que nosso jeito são nossas projeções, pessoas que não existem, e que se existissem, enjoaríamos delas.

Transformamos para descartar, porque quando aquela pessoa muda, muito provavelmente quem gostávamos não está mais lá.

Essa semana voltei a padaria, pedi o sequilho sem goiabada e mandei avisar ao padeiro que o próximo texto quem escreve é ele, provavelmente virá algo de bom, ainda que não seja doce”.

Autoria – Jonathan Araújo

COMENTÁRIO PASTORAL: Ao ler o pequeno depoimento acima, me identifiquei de início plenamente com o autor. Eu já tive os mesmos sentimentos dele sobre os sequilhos. Sempre tive a impressão que gosto mesmo é da goiabada. E vou além: quando como queijo com goiabada, por mim eu faria duas fatias de goiabada, com uma de queijo no meio. Porém, nossa visão particular das coisas nem sempre carregam o bom senso e a razão. Nem sempre aquilo que gosto será o correto, o justo e o aceitável. E assim fazemos com todas as obras de Deus. Vamos mudando seus valores e conceitos para que nos causem mais prazer. E então, percebemos um dia, que estragamos a beleza, a santidade e a essência delas. Ao encerrarmos a leitura do livro de Jó, vi seu depoimento transcrito no alto do texto: falei do que eu não entendia… dei palpites errados naquilo que estava muito além da minha visão e entendimento. Quantas dezes discordamos do jeito que Deus fez ou conduz nossas vidas. Achamos que faltou “goiabada” na maioria de suas criações. Achamos que poderíamos ter 10 centímetros a mais na altura ou 10 kg a menos do peso; que meu cabelo poderia ser 10% mais claro ou mais ondulado; que eu poderia ter um pouco mais de fama ou de dinheiro; que eu queria ter me casado com fulana, mas recebi 10% a menos do que sonhei. Somos eternos insatisfeitos – e ignorantes – a respeito da verdade e da felicidade. Passamos a vida olhando para o que não temos ou o que nos falta. Temos sequilhos nas mãos todos os dias, mas olhamos mesmo é o teor da goiabada. Depois que li o texto, me bateu um incômodo na consciência e ao mesmo tempo uma imensa gratidão por ser exatamente como sou e ter exatamente tudo o que tenho. Achei que precisava te dizer isso. Vamos à vida do jeito que ela me foi entregue. Deus é sábio… Deus é bom padeiro…!

                                                                                     Pr. Sérgio de Oliveira Campos