“O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.” Salmo 34:7

Véspera do dia da morte de minha mãe. Eu terminava a lida do dia com os seres vivos da casa. Os seres vivos sempre pedem muitas ocupações e naquele momento eram os cães que encerravam seu dia. Como de costume, eles seguiam alvoroçados pela longa rampa de acesso da nossa casa até o portão que dá para a rua. Mamãe fazia isso com eles, todas as noites, era um ritual. E porque ela estava doente, há alguns meses aquela tarefa agora era minha. 

Subi devagar o terreno inclinado, pés cansados sobre o piso de pedras, até chegar ao portão de entrada, um portão antigo, vindo de São Paulo, que papai comprou em uma casa de demolição. Admirado com sua arte de fabricação, logo imaginou que poderia ser um portão de origem espanhola e, desse dia em diante, ele contava a todos sobre a certa e longa viagem de navio que aquele objeto tinha feito antes de lhe chegar às mãos, coisa essa que nós sabíamos que não era verdade. Ou talvez até fosse, sei lá… 

Cheguei até o portão e, enquanto os cachorros iam de um lado para o outro, ergui os olhos aos céus. Eu estava cansada de tantas coisas da vida… Meu coração estava muito cansado. Esperar cansa e esperar a morte de uma mãe massacra por dentro. Eu estava despedaçada. Há quase um ano diagnosticada com um câncer muito agressivo mamãe superava os quatro meses de vida que lhe foram decretados em sentença condenatória por um médico. Mas, apesar da luta ter ultrapassado o tempo previsto, os dias eram difíceis para ela que já respirava com a ajuda de aparelhos, não conseguia mais forças para caminhar, não sentia mais prazer em comer nem podia mais deitar o corpo em sua cama… Condenada a passar os dias e as noites em sua cadeira de bordados, o tempo para ela parecia não passar, enquanto para nós ele voava e escorria pelos vãos dos dedos. Impotentes, nós nos despedíamos dela todos os dias, a cada segundo.

Naquele momento, olhei para o alto, para o céu, para as estrelas… Eu tinha a estrela mais linda em minha casa: “Stella” era o nome de minha mãe dado por seus pais estrangeiros e que quer dizer “estrela”. Por que tirar o brilho da nossa estrela agora? Por que deixar escuro nosso caminho? E eu olhava o céu perdida em pensamentos, em desejos, em agonia… Foi quando, de repente, parei com os olhos no alto do telhado da casa vizinha de frente. Algo diferente atraiu minha atenção. Paralisada, eu vi nuvens rodando em círculos acima daquele telhado. Pensei ser algum efeito da grande antena parabólica que ela tinha, mas não era. Aquelas nuvens giravam como em uma ciranda, sumiam e apareciam como um grande pisca-pisca. Fiquei ali parada, absorta com aquela visão. Seria fruto do cansaço? Seria um fenômeno que eu não conhecia? Nada explicava o que meus olhos viam. Depois de um certo tempo, deixei aquele torpor, chamei de volta os cachorros e entrei em casa e fui me ocupar das coisas, das roupas diárias que mamãe usava, nela e em sua cadeira.

Naquela noite, minha sobrinha Luciana pediu para dormir na cama da avó, ao lado dela em sua cadeira. Findos os trabalhos da casa, com todos recolhidos em seus aposentos, fui ter em meu quarto e adormeci, exausta. Por volta das quatro horas da manhã acordei com o chamado de minha cunhada Cleia pedindo que eu fosse ao quarto de mamãe para fazer a troca do aparelho de oxigênio. Certamente, essa seria mais uma das muitas tentativas de fazer mamãe ter um pouco mais de ar nos pulmões.

Cheguei rápido ao quarto e, diferente das outras vezes, encontrei ali muita gente. Além de minha sobrinha, vi minha cunhada e meus dois irmãos. Ninguém deveria estar ali naquela hora. Imediatamente o coração mais se apertou, nem sei mais dizer onde ele conseguiu espaço para dar mais um nó; já eram tantos… Mamãe pedia para ser sedada; dormindo não sentiria tanto sofrimento. Sem sucesso de ajuda de amigos médicos, meu irmão chamou o pronto socorro da UTI móvel.

A equipe chegou e enquanto adentravam a chácara, lúcida que era, mamãe foi a seu modo se despedindo de cada um de nós. Luciana acompanhava a cena e chorava. Na sala eu aguardava a saída dela, carregada pelos enfermeiros com a ajuda do lençol que estava com ela, azul claro com barrado de estampa floral. Ela gostava assim. 

Ao sair, mamãe pegou em minha mão e me disse ofegante duas palavras: “Valeu filha”. E eles a levaram. Meus irmãos a acompanharam. Aqui ficamos papai, Cleia, Luciana e eu, ambos olhando aquele vazio estranho que tinha ficado naquele quarto e dentro de nós. Era perto das cinco horas da manhã. 

As seis horas telefonaram. Cleia atendeu e depois de alguns segundos também me disse duas palavras: “Não deu”. Com o rosto entre as mãos, encostada à porta, chorei um choro estranho dentro de mim, sem gritos, sem som; um choro doído que só quem chora por um motivo assim imagina de onde vem essa dor; um choro amargo, de decepção com a vida, de impotência, de perda e de saudade sem fim. 

Cleia me abraçou. Papai ficou inerte. Mamãe sempre foi a voz forte da casa. E cada um saiu para um canto como que procurando algo que deveria ser feito… Na portaria do hospital, meus irmãos aguardavam os papéis que decretariam a saída definitiva de mamãe deste mundo e nos enviavam informações sobre como se daria seu sepultamento. Em casa, um pouco perdidos, contávamos aos amigos e queridos sobre essa última viagem de mamãe. 

No final daquela manhã de domingo, no templo da Igreja Metodista Central de Goiânia, com um grande culto dissemos adeus à mamãe. O caixão fechado foi pedido meu e acatado por meu pai e meus irmãos. 

De volta, já em casa, minha sobrinha veio falar-me. Queria contar-me algo que vira naquela noite em que esteve a sós com a avó. E ela descreveu, receosa, uma visão que tivera. Estava na cama quando viu dentro do quarto um vulto branco, reluzente. Como somos protestantes, membros de igreja considerada tradicional, não somos levados por sensações, visões humanas, nem sonhos, e sua história se encaixava bem em nossos “nãos”.  Naquele momento eu me lembrei do que tinha visto em frente ao nosso portão. E eu tive, então, a certeza absoluta de que nós duas tínhamos visto anjos. Eles vieram buscar mamãe; eu não tenho dúvida nenhuma disso. Jacó viu a escada com anjos e eu vi suas cirandas. E eles a levaram naquele raiar do sol, três dias depois de seu aniversário, no dia 20 de janeiro de 2008.

O tempo seguiu seu curso deixando em mim um vazio enorme. Mamãe era ágil, decidida, forte, sábia, lúcida, uma mulher de fibra, de exemplo de trabalho e de muita fé em Deus. Ela nos deixou muito cedo.

Sei que um dia nós nos veremos no céu e até lá seguirão comigo as coisas que ela deixou dentro e fora de mim. E enquanto esse dia não chega, mesmo sabendo que ela não me ouve mais, as vezes me pego dizendo alto: “Mãe, eu estou aqui, morrendo de saudade da senhora.” E é verdade…

                                                                           Kátia de Oliveira Campos