“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”João 16:33

Jesus nunca prometeu vida fácil. Jamais disse que seus seguidores teriam vida boa, sucesso, saúde, dinheiro e mulheres. Não prometeu tesouros para este tempo ou para este mundo. Ele mesmo não tinha sequer um lugar para recostar a cabeça. Jesus não prometeu carro novo, casamento fabuloso ou os melhores empregos. Se em nome de Jesus prometem tais regalias não entendeu seu ensino, ou não pode falar em nome dele.

Jesus foi um homem de aflições. Visto como filho “ilegítimo” de José, e de uma aparente mãe solteira” – Maria – que só não foi humilhada publicamente porque um anjo apareceu num sonho a José, ainda noivo, e o convence a assumir a criança que não era dele. Jesus sempre soube que José não era seu pai legítimo, nem por isso deixou de honrar e obedecer ao padrasto.

Por vocação, abriu mão de uma vida “normal” – profissão, casamento, filhos – coisas que todos sonham ter ou ser – em nome de um ministério itinerante. Percorreu o país como andarilho; vivia de favores; dormia na casa de outros e em lugares estranhos. Comia o que ganhava. Não possuía bens; não buscava “um cavalo do ano” ou “uma túnica de griffe”. Gastava o seu tempo não para si, mas para os outros. Morreu de uma forma humilhante! Cuspido, nu, traído e sozinho! Tão doída quanto a dor das chicotadas foi a dor da rejeição e do abandono daqueles que caminharam com Ele, mas que, na hora da aflição, preferiram salvar a própria pele. Dor na alma!

Jesus foi um homem de aflições e afirmou: “No mundo vocês terão aflições, mas animem-se, pois eu venci o mundo”. Jesus não nos prometeu vida fácil, mas aflições! Não foi uma promessa, no sentido profético, mas um alerta, como se dissesse: “Não pensem que esta vida não reserva aflições para os que estão vivos”. Sim, as aflições são parte da vida. Todos nós passamos ou passaremos por ela – enfermidade, desemprego, injustiça ou morte de um querido.

“Mas tenham bom ânimo!”. Assim Jesus nos animou a enfrentarmos as aflições que passaríamos. Segundo ele “o mundo jaz no maligno” e “o diabo é o príncipe deste mundo”. Assim sendo, as aflições aqui são e serão sempre abundantes. Não prometeu uma vida rica em bens ou pobre em aflições, nem disse que as aflições seriam breves. Jesus nos animou dizendo “eu venci o mundo”.

As aflições são terrenas. Aqui é um local transitório. Cremos na vida eterna, em outro lugar, onde não habitará o choro ou a tristeza. Jesus venceu o mundo onde jaz a aflição. Ele não venceu a aflição. A vida não se encerra neste mundo, mas é eterna, perpétua, perene, extrapolando os limites do tempo e do espaço, deixando o mundo das aflições para trás e rompendo noutra existência, na qual a aflição não existe. Ela reside neste mundo de aparência.

Neste sentido, a morte deixa de ser uma crise ou pânico. Revoltar-se contra Deus porque alguém completou o seu ciclo de vida passa a ser uma demonstração de falta de amor àquela pessoa, pois se a quero perpetuamente neste mundo de aflições, não a quero em lugar de alegrias. Se não a quero no lugar das alegrias eternas é porque estou sendo egoísta e a quero para mim, mesmo que isto signifique uma vivência de aflições para ela. Assim, de fato, eu amo a mim mesmo, tanto me amo que não quero sofrer a ausência. Para o apóstolo Paulo “morrer era lucro e viver era Cristo”.

Felicidade integral não mora neste mundo, posto que a aflição fez dele sua casa. Enquanto a viagem para o além não tiver seu horário confirmado, a gente vai tentando fazer desta estação um lugar um pouco melhor, buscando formas para minimizar as aflições de alguns, por meio do amor e ensinando muitos a terem expectativas adequadas com relação a esta existência, sabendo que a paz e a felicidade perfeitas são coisas de outro mundo e que, paradoxalmente, a morte nos conduz à verdadeira vida.

Autor: Pr. Luciano Maia