Tempos atrás participei de um momento muito especial e delicado, ao acompanhar uma família que vivenciava a experiência do luto. Me foi pedido que estivesse com eles quando entrariam no quarto – o pequeno mundo que pertenceu à mãe. Os quatro filhos se ajuntaram para o desmontá-lo, e partilharem as coisas que haviam ficado dela. Não era muita coisa: peças de artesanato, fotos, livros e umas poucas joias faziam parte do acervo a ser partilhado. Cada um se expressou a respeito do que seria mais significativo a respeito dos objetos. Um dos filhos, então, disse aos demais: “Eu queria mesmo era a presença dela. As coisas dela não são ela”.

Enquanto acompanhava o desenrolar da partilha, fui ao futuro e tentei imaginar meus filhos repartindo meus guardados amontoadas nas caixinhas e gavetas. Tenho poucas coisas de valor monetário, mas de profundo valor emocional para mim.

Todos nós ajuntamos um legado. Colecionamos coisas e memórias que espelharão o que, um dia, foram nossas experiências mais significativas. O que seriam nossas riquezas? O que realmente estou guardando que venho considerando como minhas relíquias?

De repente Imaginei Deus olhando nossos guardados. Pensei nos seres humanos expondo suas relíquias diante do Todo-Poderoso. Iriam à luz nossos segredos para que Ele escolhesse algo que mais Lhe agradasse e nos caracterizasse. Alguns amontoariam imóveis, dinheiro ou joias; outros guardariam obras de arte; outros mostrariam suas músicas, poesias, livros e diplomas; por certo alguns resumiriam pequenos atos ou obras feitas. Pensei no que agradaria o Criador. Penso que, na verdade, Deus não escolheria nenhum dos nossos bens materiais ou realizações pessoais. Ele acolheria como maior relíquia a nossa própria existência. Deus tem paixão por cada um de nós.

Por isso o apóstolo Paulo no versículo acima fala em apresentar nosso corpo por sacrifício vivo.  Deus não nos coage para que Lhe entreguemos nossa vida. Amor jamais pode ser uma obrigação. Oferecer-nos a Deus é, antes de tudo, uma opção de vida. Ao usar a expressão rogo-vos, Paulo implora que nossa vida diante de Deus seja entregue num gesto espontâneo de gratidão e reconhecimento de que Ele muito nos amou. Só o amor doado pode retribuir o imenso amor recebido.

Paulo fala de sacrifícios vivos. No passado se ofertava às divindades animais – ou até mesmo pessoas – mortas. Suas vidas eram tiradas e oferecidas. Cadáveres eram colocados sobre o altar. Hoje a Deus não interessa nossa morte. Ele quer que Lhe entreguemos nosso projeto de vida. Ele quer participar da nossa existência. Há quem pense que servir a Deus seja morte ou abrir mão dos prazeres da vida. Quem assim pensa não conhece a Deus, e hesita entregar-Lhe seu existir errado e pecaminoso – não quer abrir mão do seu prazer torto porque na sua concepção de vida, isso é o que ele vive de melhor. Servir a Deus seria morrer.

De Deus recebemos o melhor. Assim, retribuamos também o que tivermos de melhor. Sacrifício santo e agradável é uma vida acertada, coração limpo, sentimentos depurados pelo próprio Deus. Não se oferece a uma visita importante um bolo mofado, torta podre ou suco vencido. Não é a visita que exige o melhor. É o anfitrião que deseja a servir a perfeição.

Quando vamos receber alguém a quem queremos causar a melhor impressão, buscamos saber do que ele gosta para servirmos o que lhe agrada. Podemos até servir algo que o visitante nunca experimentou e ele venha a gostar. Mas podemos servir carne a alguém que, por princípio, é vegetariano.  Por isso, busque saber o que poderá agradar integralmente a Deus. Almeje que, quando Ele receber toda sua vida no altar, se agrade plenamente do que fora.

 

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.” (Rm. 6:12-13)

 

Todo momento é dia de oferta.

Hoje é momento de entrega.

Dê ao Senhor o seu melhor.

Pr. Sérgio de Oliveira Campos