“Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa povo de propriedade exclusiva de Deus”.
I Pe 2:9

Há cerca de 50 anos atrás residimos em frente à Faculdade de Medicina da UFG. Bem em frente à nossa casa tínhamos a visão de um canil que fornecia para a Faculdade de Medicina os cães que serviriam de aprendizagem aos futuros doutores. A portinha malconservada não impedia que ouvíssemos os ganidos e lamentos dos cães aprisionados ali, incomodando os sensíveis corações infantis da nossa vizinhança.

                Os cães eram coletados pela prefeitura – pela famosa e desumana carrocinha – entre os cachorros vadios da rua. De lá eram levados a um depósito, onde aguardariam por resgate de seus donos. Após um tempo de espera, os cães eram direcionados para a morte. Representavam o saldo daqueles que não foram procurados ou reclamados por seus donos. Esquecidos ou renegados eram confinados naquele cubículo, de onde só saiam para as aulas práticas dos futuros médicos, onde posteriormente eram sacrificados.

                Certos dias da semana o “tratador” entrava no canil e separava as próximas vítimas. Após raspar-lhes os pelos da barriga, colocavam um laço de corda ao redor dos pescoços e os tirava daquele lugar. Aparentemente livres alguns cães pulavam e festejavam seu libertador. Outros, assustados e temerosos, eram arrastados pelo laço sem piedade. Mais tarde o mesmo funcionário conduzia-os de volta, agora mortos, empilhados em um carrinho de mão, depositando suas carcaças no contêiner de lixo.

                Nosso coração de criança não compreendia por que os cães tinham que morrer assim. E com o passar do tempo fomos percebendo que homens ou cães eram regidos pelos mesmos princípios diabólicos. Uns nascem em berço de ouro; outros estão vadiando por aí como indigentes; alguns poucos convivem com o “muito”, ao lado de muitos que sobrevivem sem nada; quem tiver “alguém” por si continuará vivo. Do contrário, mais cedo ou mais tarde será apanhado e perderá sua vida.

                Perambulando por um mundo em crise jazem aí milhões de vidas. Com ou sem família, com ou sem amor, vagueiam de erros em erros até serem apanhados em algum laço de vício, prostituição ou violência. Aprisionados na ignorância e alheios ao futuro que os aguarda vão lotando presídios, motéis, botecos, clínicas psiquiátricas, escolas de samba, partidos políticos e outros cubículos sujos e escuros.

                Então um dia, a mando das regiões celestes, alguém vai olhá-los e separá-los: “VOCÊ e VOCÊ, serão mortos em nome da banalidade… ESTES, serão sacrificados nas guerras entre as quadrilhas de traficantes de drogas… AQUELES, serão vítimas de grupos de extermínio e chacinas…Os DE LÁ, serão mortos por overdose…  VOCÊS AQUI, receberão tumores no pulmão…Você…  e aquele….

                Os noticiários e jornais, como um carrinho de mão, passarão coletando as tragédias e empilhando as vidas ceifadas, para espanto e tristeza de uns e a indiferença de outros. São crianças; são negros; muitos indigentes; outros até famosos. Ali, inertes, são todos iguais. Estão destruídos. Para satanás todos são como cães vadios. Tanto valem vivos quanto mortos.

                Deus não cruzou os braços diante deste horror. Fez-se homem, invadiu os domínios do inferno e arrebentou a porta do cativeiro e da morte. Muitos perceberam que poderiam ganhar sua vida, sua liberdade, ao encontrarem a porta aberta e o feitor amarrado. Outros, porém, sem compreender bem o que se passa, permanecem em suas jaulas com as PORTAS ABERTAS; aceitam as sentenças de morte com naturalidade e ignoram um perdão concedido.

                Sair e viver é uma decisão pessoal. Deus abriu a porta e estendeu o caminho, mas não dará os passos por nós.

                Ser LIVRE é uma opção de vida.

                É você quem vai determinar seu destino.

                    Pr. Sérgio de Oliveira Campos.