Ao passar pela primeira vez por uma grande plantação de algodão, fiquei com esse encantamento na memória. A plantação mais parecia uma fábrica de flocos de neve!

Uma lavoura de algodão tornou-se para mim algo curioso e interessante. Poucos o conhecem na natureza. Estamos mais acostumados a vê-lo já no seu formato final, como tecido fiado, tingido e, na maioria das vezes, já moldado como roupa ou alguma obra de cama, mesa ou banho.

Entre a pluma alva ainda presa à planta e alguma obra de arte tecida no final, há um longo caminho a ser percorrido. Quando o campo embranquece como se tivesse nevado, as máquinas colhem as plumas do algodão e as ajunta em fardos. Do campo, irão para as usinas de beneficiamento onde as sementes serão tiradas, e aquelas pequenas nuvens brancas serão alvejadas para a próxima transformação.

Não se fazem os lindos vestidos diretamente das plumas do algodão. Inicialmente as sementes precisam ser retiradas antes das fibras serem tecidas. Não podemos ir para o topo do projeto com algumas cargas que nasceram conosco. Por melhores que sejam as sementes, não se misturam caroços e fibras na confecção dos tecidos. Aquilo que vai ser transformado precisará ser depurado e preparado para um propósito superior.

Separadas das sementes, as plumas desaparecem, se transformado em um imenso emaranhado de fios, prontos para serem usados nas tecelagens. O algodão, após muitos processos, será transformado em uma infinidade de tecidos que se tornarão desde sacaria – para açúcar ou grãos – até os mais finos tecidos usados em confecções.

Ainda que, como homem, não seja muito ligado em tecidos e roupas, eu olho para o vestuário humano e fico muitas vezes encantado com a riqueza da criação dos estilistas. De um mesmo tecido, com cores ou não, saem as mais diversas obras de arte. Me lembrei, então, que desde a Antiguidade as fibras que geram os tecidos vinham de plantas ou de pelos animais. Hoje, muito tecido sintético vem do petróleo – outra coisa incrível. Como foi que alguém descobriu que daquela borra preta se poderiam tirar obras de arte?!

O ser humano é uma obra-prima de Deus, mas que chega ao mundo como uma pedra bruta, um tronco de madeira ou uma pluma de algodão. Toda riqueza e genialidade precisa ser depurada e moldada a partir de mãos e olhos especializados. O vestido lindíssimo ou o móvel entalhado não são colhidos prontos na natureza. Precisam ser, antes, idealizados e construídos. A excelência depende sempre do artífice. Não há outro caminho.

O aproveitamento desses recursos naturais depende de transformações que não ocorrem por eles mesmos. Cada material precisa que outras mãos conduzam sua existência e lhes dê uma nova forma e função. Do contrário ele continuará igual aos demais – pedras, troncos e fibras – desperdiçando tudo o que é.

Após a colheita mecanizada eu observei que restou ainda uma quantidade de flocos de algodão caídos pelo chão. O produtor disse que não compensava financeiramente pagar uma cata manual dos flocos derrubados durante a colheita. O custo seria alto e o resultado pouco significativo. Assim eles consideram esses flocos como perdidos. Na visão capitalista, não compensa buscar aqueles que se desviaram do projeto da colheita.

Existe muita matéria-prima desperdiçada no mundo porque desviou-se do caminho da transformação. Elas seguirão caídas em algum ponto da vida e, se não forem encontradas e colocadas no caminho das mudanças, se perderão, apesar de serem preciosas na essência. Por isso Deus se fez homem, e saiu pelo caminho à procura do que foi jogado fora, ou caiu do projeto original, mas que continua valioso e precioso aos olhos d’Aquele que os criou. Para Ele, uma alma vale mais do que o mundo inteiro, e ele morreria, quem sabe, por um único floco perdido e caído à beira do caminho.

Bom saber que Ele nos amou assim, e não ficou apenas dizendo isso.

Ele veio, nos encontrou e nos recolocou na vida plena outra vez!

Pr. Sérgio de Oliveira Campos