A Bíblia evidencia no Gênesis que a família, construída a partir do casamento entre um homem e uma mulher, seria o propósito de Deus para a existência e perpetuação humana, através de uma união estável e duradoura. Ainda hoje, casamentos tornam-se indissolúveis apenas quando Deus está presente na sua construção. E mesmo os aliançados Nele, podem sofrer os atropelos destruidores dos erros de maridos e esposas.

Com a escolha humana por valores distintos dos de Deus, a família sofreu as consequências dos seus erros, que se iniciam já nas escolhas e prosseguem na administração dos relacionamentos.

O divórcio surge tal como os túmulos se tornam necessários a partir da constatação da morte. O divórcio foi normatizado pela Lei Mosaica (Dt.24:1), por causa da dureza e inflexibilidade do coração humano – conforme disse o próprio Jesus (Mt.19:8).

O divórcio foi uma permissão divina para situações graves e extremas, mas acabou banalizado pelos judeus que se utilizavam deste meio para a busca de novos casamentos ou dissolução de seus vínculos familiares. Jesus reafirmou o propósito divino do casamento, mas admitiu o divórcio em casos de adultério (Mt. 5:32; 19:9)

É Bíblica a afirmação de que “o que Deus uniu, não o separe o homem”. Porém é perceptível que muitos casamentos são meros contratos humanos entre vidas que Deus realmente não uniu. Há casamentos por conveniência, por gestações não previstas, por paixões cegas ou imaturidade das partes, e que resultarão num vínculo desastroso. Há ainda casamentos que foram gerados com a aprovação de Deus, mas que foram mal conduzidos ou abalados por situações difíceis de serem transpostas. Por isso, uma união que tinha um bom projeto, poderá degenerar e ruir para tristeza de Deus e dos homens, tal como algumas gestações começam bem, mas terminam na morte prematura dos fetos.

                Há cristãos que interpretam tal permissão de divórcio dada por Jesus em casos de adultério (devido à dureza do coração humano) apenas para fariseus, por eles não serem discípulos. Para os que são discípulos a orientação teria sido diferente. A dureza de coração é característica de pessoas não trabalhadas pelo Espírito Santo de Deus. Portanto, Jesus teria condenado toda e qualquer forma de divórcio. Vemos esta exegese forçada e extremada. Pessoas erram nas escolhas, muitas delas feitas quando ainda não conhecem a Palavra de Deus. Outros, mesmo conhecedores da Palavra, também fazem opções errôneas das quais se arrependerão mais tarde.

O que Cristo chamou de “dureza do coração” seria toda a incapacidade humana de aceitar os erros e debilidades uns dos outros. Muitos têm dificuldade em compreender e perdoar; há traumas não curados e realidades íntimas que somente cada pessoa pode avaliar. Jesus sabia de tais situações, e mesmo que a vontade divina seja outra, Deus respeita esses limites nossos. Cremos que todos os divórcios são chorados por Deus por causa desta incapacidade humana de superar crises e continuar um projeto que sofreu um abalo.

Jesus limitou o divórcio à infidelidade. Esta é uma das áreas em que o ser humano tem imensa dificuldade de continuidade. Ela abre feridas e cria uma situação de desconfiança muito difíceis de serem superadas. Exige um milagre de Deus. E sabemos que milagres acontecem, mas que necessitam de vontade e de fé.

Entretanto, alguns terão dificuldades em outras áreas e enfrentarão sérias barreiras para a manutenção do vínculo. A convivência difícil, desajustes sexuais ou comportamentais, crises financeiras, diferenças de idade ou de concepções de vida poderão minar o vínculo matrimonial. A violência doméstica, o alcoolismo e outros vícios comprometem seriamente a continuidade da família. Algumas pessoas conseguem carregar tais cruzes por toda a vida, mas nem todos têm a mesma força e resignação. Estes motivos talvez fossem administráveis, se o casamento contasse com ajuda externa, o que nem sempre é possível, ou é permitido por uma das partes. Por estas e outras dificuldades é que muitos casamentos desabam, mas não seria adultério. E segundo o texto um divórcio por tais motivos não estaria na permissão de Jesus. Por isso há quem creia e ensine que, uma vez casados somos obrigados a seguir adiante até que a morte nos separe. Não haveria outra saída. Entretanto, tal visão não parece se alinhar com a abundante graça de Deus sobre os erros e dificuldades humanas. 

                Divórcio organiza um fracasso. A presença de filhos em um relacionamento é uma evidência de que há vínculos indissolúveis. Isso vale até mesmo para quem os teve solteiros ou fora do casamento. Divide-se bens e espaços, mas os filhos são indivisíveis. Por isso, o divórcio é uma solução imperfeita para administrar um projeto fracassado de família. O divórcio jamais será a proposta ou solução de Deus para os homens.

Uma boa notícia: errar no casamento não é pecar contra o Espírito Santo. Assim sendo, é um erro passível de perdão e de cura divina. Para aqueles que fracassaram ou desistiram, reafirmamos a mão estendida de Deus, ao invés de seu dedo acusatório e condenador.

                Deus é amor!

                                                                              Pr. Sérgio de Oliveira Campos